|
Passava um pouco das 21 horas e eu voltava para casa. Difícil de entender o porquê da longa fila de carros e das estridentes buzinas. Algunss minutos passaram e eu avistei o caminhão do lixo e seus heroicos seguidores. Um dos lixeiros rebolava entre os carros enquanto cantava, correndo em direção ao caminhão. Uma cena linda, digna de filme. Imediatamente pensei na ameaça que meu pai fazia quando eu não queria ir à escola, nas manhãs frias e chuvosas de minha infância: se você não estudar só vai conseguir emprego como lixeiro.
Ao ver aquele personagem humilde e feliz, pensei imediatamente nas dezenas de reuniões enfadonhas, nos almoços de trabalho e nas penosas tarefas que tenho que executar diariamente. Mais ainda, comecei a perguntar o que mudou nos últimos 30 anos, para que uma profissão marginalizada ganhasse tanto respeito e prestígio. A resposta veio quase automática. Poucos profissionais são tão importantes para a sociedade quanto os lixeiros.
Se professores, advogados, contadores, jornalistas, administradores e tantos outros profissionais entrassem em greve, boa parte da sociedade nem sentiria sua ausência. Mas se a greve for nos serviços de limpeza, o caos está instalado. Logo os olhos e o nariz clamarão pela solução do impasse. Ao reconhecer a importância do lixeiro, a sociedade ajuda-o a recuperar a auto-estima, resgatando no profissional o prazer de servir. Assim, a cidade fica mais limpa e bonita. A pessoa torna-se mais produtiva e feliz.
Ora, se recolher lixo correndo ladeira acima pode rimar com cantar e dançar, por que muitas vezes as empresas insistem em estabelecer um clima de velório em pleno local de trabalho? Será que bom humor se transforma em lucro apenas no circo, teatro ou cinema? Banir o sorriso do local de trabalho aumenta a produtividade?
Mais tesão
Na esteira da fábrica de artigos para festas perfilam-se cornetas, línguas-de-sogra, chapeuzinhos, balões e apitos. No controle de qualidade, alguns itens devem ser testados. Inevitável tentação. Mas uma placa alerta: não sorria no trabalho. Tentativa inútil de banir o prazer. Absurda expectativa de transformar pessoas em máquinas, e acreditar que assim serão mais produtivas.
É bem verdade que produtividade não rima com descontração, mas é certo que também não aumenta com a tensão. Ao criar no trabalho espaços agradáveis, de crescimento pessoal, com momentos para descontrair, o empresário aumenta naturalmente a vibração do grupo. Assim, melhoram as relações interpessoais, diminui o absenteísmo e aumenta naturalmente a produtividade. Isso tudo, sem qualquer coação, por simples tesão.
Satisfazer as necessidades básicas das pessoas e reconhecer frequentemente o quanto é importante cada tarefa no contexto social e empresarial são questões fundamentais para o surgimento de uma empresa mais alegre e produtiva. Criar espaços, dentro ou fora do horário e local de trabalho, para a integração do grupo, oferecendo oportunidade para manifestações esportivas, artísticas ou culturais pode ser o início de uma nova etapa para a empresa. Muitos talentos aparecerão e será possível perceber, em ambiente natural, o potencial criativo de cada pessoa, percebendo de que forma ela pode ajudar o grupo a crescer.
Tensão e criatividade
Apenas na guerra, quando a vida está em jogo, conseguimos conciliar tensão com criatividade, utilizando a intuição e os instintos animais. Fora dessa situação, a tensão deve ser dosada e mesclada com bastante descontração. Só consegue criar quem se sente seguro, tem prazer no trabalho, domina o poder e ama o que faz. Gerentes que tentam impor metas por meio de ameaças apenas demonstram seu despreparo. A função do gestor é propiciar todos os recursos para boa operação e compreender que seu papel principal é intervir para que o ambiente não obstrua motivar e motivar-se, a qualquer custo.
Não há atividade humana que não possa ser aprimorada. Com habilidade, respeito e confiança é possível criar ambientes alegres, produtivos e saudáveis. Quem gerencia pessoas e processos precisa estar com seus sentidos aguçados. Uma boa piada pode quebrar o gelo, aproximar as pessoas, esvaziar a tensão e reconstruir pontes quebradas. Trabalho é brincadeira de adultos. O resultado dele é que é um pouco diferente. Precisa contribuir para a sociedade e para a empresa. Mas continua sendo fator de desenvolvimento humano e social, de integração, de reconhecimento, de vida e felicidade.
Presidente do Instituto Eckart Desenvolvimento Humano e Organizacional
www.institutoeckart.com.br
|