O sistema capitalista, a partir de 1970, apostou na crescente liberalização dos mercados produtivos e financeiros pelo mundo. Nas economias desenvolvidas, a expansão do crédito criou papéis financeiros resguardados em dívidas de longo prazo. Estes mesmos papéis lastrearam derivativos, que criavam mais crédito, permitindo novos ganhos que geraram um círculo não tão virtuoso quanto se propagava. A crise financeira que afeta de forma mais acentuada as principais economias, especialmente os EUA, restringiu o crédito, o comércio e diminuiu a demanda de bens e serviços, colocando em xeque as bases do desenvolvimento do atual sistema econômico.
No Brasil, a redução dos níveis de emprego e de investimentos anunciada por várias empresas, além de um ambiente mais pessimista nos negócios, ficou evidente com o recuo de 3,6% no último trimestre de 2008 do PIB e não deixou dúvidas de que os impactos da crise internacional estão presentes. Entretanto, será que a falta de crédito, a redução das exportações e a escassez de demanda são situações novas para a economia brasileira? Como dizíamos inocentemente na infância: “Novidade que não é tão nova assim”.
A oferta de crédito privado no Brasil é um fator que, historicamente, limitou o ritmo do investimento do setor produtivo. Considerando sua expansão nos últimos anos, o crédito atingiu pouco mais de 30% do PIB, concentrando-se no mercado destinado à pessoa física, favorecendo o aquecimento do consumo. Ainda assim, a oferta de crédito no Brasil fica abaixo de países como o Chile, Coréia, Espanha e, principalmente, as economias desenvolvidas. Com a crise, a pressão sobre os fluxos de caixa das pequenas e médias empresas, a procura de recursos internos por parte das grandes empresas e a diminuição da oferta de recursos dos bancos médios deverão reforçar os impactos da restrição, tornando o crédito mais oneroso e até inacessível para algumas parcelas do setor produtivo.
Por outro lado, a inserção tardia da economia brasileira nos fluxos financeiros e produtivos mundiais, além da acentuada participação do governo no sistema financeiro, se mostram como elementos surpreendentemente favoráveis neste período de instabilidade econômica. No caso da redução da demanda mundial e do preço das commodities, considerando o alívio trazido pela desvalorização cambial, o impacto para o Brasil é negativo, já que as exportações em 2008 chegavam a 20 milhões de dólares mensais, ainda que a contribuição destas para a economia nacional seja reconhecidamente limitada.
A precariedade de alguns fundamentos do capitalismo brasileiro, se comparado aos países desenvolvidos tão questionado por órgãos e agências internacionais em outros momentos da nossa história, tornaram-se fatores importantes para que a crise não tenha chegado de forma tão avassaladora. Soma-se ainda as medidas de ajuste tomadas pelo governo para tornar a economia brasileira menos vulnerável às oscilações internacionais, além das medidas para garantir o nível de consumo doméstico e a retomada do investimento.
Será este o momento de olhar sem desprezo ou ressentimentos para os acertos e devaneios da nossa economia para enfrentarmos o período de crise? Como dizia Sócrates, conhece-te a ti mesmo. Entre arrochos, crises, confiscos, ajustes e turbulências diversas vividos desde 1970, é fato que a criatividade brasileira tem achado espaços de sobrevivência e desenvolvimento, ainda que tacanho. Buscar alternativas à crise talvez seja uma oportunidade e uma necessidade para observar com maior atenção para a força e a forma de crescimento experimentada pelo Brasil. Já que hoje, caprichosamente, o que era visto como grotesco e lamentável na economia brasileira se mostra notório no palco em que se exibem cenas de fuga e sobrevivência em tempos de crise.
* Filósofa, Economista e Mestre em Política Científica e Tecnológica